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Cuidar de Doentes com Coronavírus

No início do novo surto de coronavírus na Península Arábica, Maria* foi chamada para uma reunião na clínica onde trabalhava e pediram-lhe para começar a trabalhar numa enfermaria de coronavírus. Como parteira, Maria não achava que poderia cuidar ética ou moralmente de mães e bebés, bem como de pacientes com coronavírus, possivelmente expondo-os à doença, e explicou isso aos chefes. O seu gerente de linha disse-lhe para ir para casa e enfrentar a possibilidade de perder o emprego. Maria mandou uma mensagem ao seu grupo de jovens pedindo-lhes que orassem por ela. Eles imediatamente tiraram um tempo para louvar a Deus e orar por Maria, apoiando-a de qualquer maneira que pudessem, remotamente, pois o confinamento tinha acabado de ser imposto. Poucos dias depois, Maria ficou a saber que continuaria no seu emprego, mas trabalharia exclusivamente com pacientes com coronavírus.

Quando Maria e o seu marido, Stefan*, chegaram ao Médio Oriente em Janeiro de 2020, eles mal sabiam o que estava por vir. Após um mês de casamento, eles fizeram as malas e mudaram-se para lá para que Maria pudesse começar o seu trabalho na clínica. Stefan entrou no país com um visto de turista e esperava encontrar um emprego. Eles pensaram que teriam muito tempo para isso, mas então a pandemia do coronavírus chegou ao seu país. Após a incerteza sobre o seu trabalho, Maria logo começou a cuidar dos internados com coronavírus.

“Neste país, no início, se as pessoas testavam positivo, eram levadas para o hospital”, disse Maria. “Portanto, das pessoas que vimos, cerca de 1 em 30 tinha uma necessidade real de estar no hospital. As outras pessoas foram colocadas em isolamento. Aqueles que não apresentavam sintomas geralmente ficavam emocionalmente doentes. Muitos tinham medo de morrer, embora não estivessem doentes. Vimos pessoas a passarem pelo processo de terem medo, depois raiva por terem de ficar no hospital, seguido de depressão e, finalmente, aceitação. Muitos só queriam ter a certeza de que ficariam bem.”

“Eu não estava a usar as minhas habilidades de parteira, então tive tempo para conversar com as pessoas, o que realmente fez a diferença. Mudou a maneira como as pessoas agiam para comigo, porque eu passava tempo com elas e ouvia-as”, explicou. “Esta foi uma grande oportunidade, especialmente para passar tempo com pessoas com quem eu normalmente não poderia falar – incluindo homens.”

“Um homem estava na enfermaria há quatro semanas. A sua filha ficou infetada através dele. Ele estava com medo do que aconteceria com os seus filhos se ele morresse. O seu pai morreu quando ele tinha 10 anos e não queria o mesmo para os seus filhos. Os resultados dos testes que fez mudavam constantemente, então teve de ficar no hospital mais tempo do que o normal e eu pude ficar com ele. Ao falar com esse senhor, ficou claro que ele tinha problemas reais com a autoimagem e genuinamente abriu-se comigo: falou muito sobre a sua esposa e os seus filhos. 

Eu perguntei-lhe se se importaria que orasse por ele. Ele deixou que o fizesse e então pude passar tempo a orar com ele.”

 

Uma mudança de curso

Maria originalmente queria ser engenheira civil, mas também sentiu que Deus a chamava para o povo do Médio Oriente. “Ter um emprego foi a maneira mais fácil de entrar naquela região”, explica. “Eu orei sobre isso e parecia que todas as opções que via eram para trabalhadores em medicina. Candidatei-me a diferentes áreas de estudo e disse a mim mesma que estudaria no curso em que fosse aceite. Todas as universidades para as quais me candidatei aceitaram-me para a área de enfermagem. Vi que isso era de Deus e comecei a minha formação em 2011. Posso ver-me a fazer isso pelo resto da minha vida, embora só seja parteira há seis anos”.

Quando Maria conheceu Stefan na Formação em Discipulado e Missões (o MDT) na África do Sul em 2016, ela ainda estava a planear mudar-se para o Médio Oriente, mas os pedidos de emprego não a levaram a nada. Após a formação, Stefan regressou ao seu país de origem e eles começaram a corresponder-se, o que acabou por levar a um relacionamento à distância. Eles sabiam que queriam passar o resto das suas vidas juntos, mas Stefan ainda não estava convencido a mudar-se para o Médio Oriente. Mas ele chegou a um ponto em que achou que deveria pelo menos tentar.

“Em 2018, fiz um estágio na igreja por oito semanas em duas cidades com duas igrejas diferentes”, disse ele. “Eu senti-me como Joshua a espiar a terra e, para minha surpresa, gostei muito. Foi uma grande mistura de culturas e pessoas. Gostei do ministério lá e as possibilidades mudaram a minha opinião sobre a região. Então, comecei a pensar que poderia ir para lá viver”.

Maria e Stefan casaram-se em 2019 e, em duas semanas, ela recebeu uma oferta de emprego. Um mês depois eles tinham chegado àquela região.

 

Encorajamento através da dor

Maria compartilhou que trabalhar numa enfermaria de coronavírus foi um momento difícil em si, mas piorou quando Stefan teve de retornar ao seu país para renovar o seu visto. Pouco depois da sua saída, o governo anunciou estender o prazo dos vistos para aqueles que não podiam sair, mas era tarde demais para ele. Passaram-se três meses até que ele pudesse regressar e reunir-se com a sua esposa.

“Foi difícil ficar sozinha durante esse tempo”, lembra Maria. “Os meus colegas tiveram que ficar em hotéis longe das suas famílias como forma de quarentena enquanto trabalhavam na enfermaria. No meu caso, pude ficar em minha casa, porque estava sozinha, mas teria sido melhor ter o Stefan comigo. Eu superava isso diariamente com muita oração.”

“É difícil quando não consegues convencer as pessoas de que não vão morrer, mas quando elas entendem isso, é bom ver uma mudança nelas. Muitas enfermarias de coronavírus no país já foram fechadas, embora ainda existam pessoas que têm o vírus.”

Maria está de volta ao trabalho na maternidade, feliz por ver um bebé prematuro, que nasceu pouco antes da pandemia começar, a ter alta por já ter um peso saudável. Um lembrete de que Deus está a operar milagres através da dor que esta pandemia trouxe consigo.

 

* nomes alterados

 

Por Rose M.

Data: 07/12/2020

Península Arábica

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